sexta-feira, agosto 21, 2015

Troca cultural - Matheus Romanetto

O RPG sempre esteve muito próximo dos estudos, para mim. Não cheguei a ter aulas que empregassem o jogo como recurso didático, mas foi na escola, em encontros organizados por alguns de meus professores, que conheci uma boa parte de meus sistemas favoritos. Durante algum tempo, fui apenas jogador; não tinha adquirido nenhum livro, e mantinha o hábito do jogo apenas de maneira intermitente, conforme variavam as condições para me reunir com meus amigos mestres. Apenas passei à posição de narrador quando uma mesa que havíamos planejado teve um fim abrupto e inesperado, e ficamos na expectativa de que uma partida nova saísse ali mesmo, no improviso, para matar o tempo da tarde em que estaríamos juntos. Acabei optando por trabalhar um cenário na França histórica da Revolução Francesa. Um de meus amigos emprestou-me então o livro do sistema que estávamos usando - era o Vampiro: o Réquiem, do Novo Mundo das Trevas -, e nas semanas subsequentes, dediquei-me ao preparo de uma história que desse conta de realizar novas sessões.

Como era época de vestibular, acabei aproveitando a necessidade de avançar no jogo para estudar alguns assuntos de historiografia que me interessavam. As sessões da campanha, iniciada com a queda da Bastilha, interagiam com o progresso dos eventos mais importantes do processo da Revolução. Não havia qualquer pretensão de manter o jogo fiel ao desfecho real desse processo, e de fato os jogadores acabaram "mudando a história", ao longo das partidas. Foi também a primeira vez que empreguei um recurso de que gosto muito, que é a apresentação de figuras históricas como personagens com que os jogadores podem interagir. Naquela ocasião, meu escolhido foi o Marquês de Sade. Foi uma chance que tive de explorar meus breves conhecimentos da obra do literato libertino, e de me divertir com a chance de atualizá-los no seio da imaginação lúdica.

Algum tempo depois, quando adquiri Mago: Cruzada dos Feiticeiros, tive chance de repetir esse tipo de empreendimento, mas agora com uma carga teórica mais refinada. Antes de preparar o jogo, que é situado na Europa do Renascimento, cursei um semestre de História Moderna na universidade. Para minha surpresa, alguns dos livros que constavam na bibliografia do curso estavam indicados pelos próprios autores do sistema, na lista de fontes que eles recomendavam para aprimorar a imaginação do cenário. A história foi baseada, além disso, sobre a Trágica História do Dr. Fausto, de Marlowe, obra que eu havia conhecido alguns anos antes, mas que havia lido de modo muito desatento. Foi uma ocasião, portanto, de retornar à literatura e a historiografia relativas ao Renascimento, movimento que eu há muito tinha vontade de realizar, e que acabou inclusive dando origem a um pequeno projeto de pesquisa.

Por conta dessas duas aventuras, tornei-me muito afeito a jogos de teor histórico, e hoje em dia o RPG é uma fonte constante de estímulo para minha curiosidade. É uma atividade em que se pode tratar de assuntos sérios de maneira divertida, e em que é possível manter vivo o espírito do diletantismo e do livre pensamento, um bom antídoto aos malefícios da especialização. Praticado de maneira consequente, o jogo pode tornar-se assim um interessante ambiente de troca cultural, e favorece, com todos os seus limites, o cultivo da autonomia criativa.

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